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06/11/2019 18:22:17

Aojustra divulga nova crônica concorrente aos prêmios deste mês de novembro
Oficiais de Justiça ainda podem participar do concurso com envio de textos até 22 de novembro.

A Aojustra realiza, até o final deste mês de novembro, o Concurso de Crônicas sobre o dia a dia do oficialato.Os textos remetidos por Oficiais de Justiça de todo o Brasil têm o objetivo de registrar a atividade através de histórias reais que podem ser engraçadas, sensíveis, inusitadas ou até sobre os riscos enfrentados no cumprimento das ordens judiciais. 

Os cinco primeiros colocados serão contemplados com uma viagem para Colônia de Férias em Caraguatatuba conveniada com a Associação, além de outros prêmios que serão entregues aos participantes durante a confraternização de final de ano marcada para 28 de novembro no bar Salve Jorge, em São Paulo.

Para participar, o Oficial deve enviar a crônica para os e-mails aojustra@outlook.com e ane.galardi@gmail.com. É importante que o texto esteja devidamente identificado com o nome completo do autor, bem como a lotação e um número de telefone para contato. O prazo de participação termina em 22 de novembro. 

Intitulado “Paradoxos”, o texto desta semana é mais uma contribuição de autoria da Oficiala de Justiça Bruna Vivian Eustachio de Toledo Piza, da 27ª VT de São Paulo. Confira: 

Paradoxos
 
 Esta história fala de ilusões e de sonhos e de quanto o ser humano precisa deles para sobreviver.

Quando eu era Analista do TRT da 2ª Região, trabalhei em Varas e em Gabinete, mas queria muito ser Oficial de Justiça, pois achava que teria mais flexibilidade de horário e autonomia sobre o meu trabalho.

Então me esforcei e passei no concurso para Executante de Mandados, sendo designada para atuar na Zona Sul da Capital. O trabalho era puxado e me deparava com muitas penhoras e providências em casa de sócios, o que se fazia muito desgastante física e emocionalmente para mim. Ouvi dizer que os Oficiais que atuavam no Centro de São Paulo é que eram felizes: uma área repleta de empresas, todas elas concentradas numa pequena área, em que se poderia trabalhar à pé.

Meu sonho passou a ser trabalhar no Centro da cidade e, por remoção interna, consegui a almejada transferência.

Pronto, agora tudo seria mais simples.

Só que esqueceram de me contar um detalhe, que eu teria que ser muito mais forte do que tinha sido durante toda a minha vida, pois iria me deparar diariamente com a miséria humana, com os menores abandonados à sorte das ruas, com os viciados que perambulam como zumbis atrás de um sopro de vida, com os mendigos esfomeados, com trombadinhas armados que arriscam a própria vida e não temem pela vida alheia, pois não têm nada a perder, enfim, teria que lidar diariamente com a dor do outro, com tudo aquilo que muitas vezes a gente finge que não vê e chora calado diante de nossa impotência em meio a um mundo tão frio e cruel. E tudo isso sob o badalar dos sinos da imponente Catedral da Sé...

E era sem muitas expectativas que eu ia trabalhar todos os dias, sabendo que em cada portinha daquela área central podia ter de tudo, uma empresa escondida, pessoas vivendo em condições precárias, trabalhos que mais pareciam análogos à condição de escravo, cortiços, sempre uma nova realidade muito além da minha imaginação.

O trabalho seguinte era muito simples: intimar um sócio acerca de uma penhora “on-line”. O endereço era de um apartamento localizado numa travessa da Praça João Mendes. No térreo havia uma loja Gospel, bastante movimentada, vendendo Bíblias, livros, CD's, DVD's. Passei por ela ao som de uma agradável música de louvor. Ao lado, com o número indicado no mandado, uma porta de ferro muito velha, sem pintura e toda enferrujada, dava acesso a um predinho bastante antigo, muito mal conservado, de uns 10 andares. Notei um entra e sai de muitos homens, orientais na sua grande maioria. Como não havia porteiro, segui por um pequeno corredor escuro e avistei um elevador obsoleto, daqueles que a gente agarra um puxador e fecha a porta pantográfica. Aguardei na fila juntamente com vários homens, alguns com a camisa semi aberta, que me olhavam com curiosidade. Ficamos ali até o elevador chegar. Procurei me concentrar na música que vinha do lado de fora, mas o elevador chegou rangendo, chacoalhando tanto, que deu um baita tranco quando aterrissou. Vários homens desceram, dando lugar para os que estavam na fila entrarem.

Confesso que não senti segurança em entrar naquele elevador barulhento juntamente com aquela gente pouco amistosa. Olhei um pouco mais à frente e vi uma escada bastante estreita, escura e imunda, em formato de caracol. Tomei coragem e decidi subir a escadaria sinistra até o oitavo andar. Só me deparava com mais e mais homens esquisitos passando por mim, subindo e descendo... Eu agarrei a minha pastinha, tentando esconder o decote da camisa social que estava usando e fui subindo...

Finalmente cheguei no oitavo andar e mal terminei o lance de escadas, me deparei com um poster enorme de uma mulher com roupas íntimas, toda sensual, e uns dizeres do tipo “Gostosa”, “Safada”, “Faz de tudo por R$ 10,00”. Eu fiquei ali, parada, sem saber bem o que fazer, naquele corredor medonho. Chegou um homem oriental e me encarou de maneira desconfiada por alguns segundos e logo em seguida bateu várias vezes de forma grosseira na porta que ali havia.

A porta foi aberta por um travesti enooorme, todo sorridente, muito maquiado, repleto de acessórios, brincos, arranjo no cabelo, com uma belíssima lingerie vermelha. Ao me ver, ele ficou sério e eu comecei a gaguejar, perguntando pelo destinatário do mandado. Ele falou com a voz bem grossa e empostada que desconhecia completamente aquela pessoa e foi me dispensando, dizendo que eu estava no endereço errado. O oriental, impaciente, confirmou que não conhecia a pessoa que eu estava procurando, entrou rapidamente e bateu a porta fazendo o maior estrondo.

Eu só queria sair dali o mais rápido possível, retornei para a escada sinuosa e fui descendo o mais depressa que consegui, com as pernas bambas, assustada, observando pelos andares que o prédio todo era um "inferninho", pois todas as portas tinham posters com mulheres e homens em poses sensuais, oferecendo serviços sexuais a preços bem módicos. O térreo não chegava nunca e cada vez mais e mais homens subindo e descendo aquelas escadarias, fui percebendo mais e mais lascívia nas imagens, nos sons, nos cheiros de todos os corredores.

Cheguei finalmente no térreo e saí daquele lugar o mais rápido possível, ouvindo novamente uma bela melodia de louvor. Estava tão atordoada, que quase fui atropelada em meio aos carros. Continuei meu dia de trabalho reflexiva do quanto a gente se ilude nesta vida.

Pensei na igreja suntuosa cercada de mazelas... no inferninho em cima de uma loja de artigos evangélicos...  no quanto nossos sonhos podem se tornar nosso pior pesadelo... e no quanto as trevas podem estar tão próximas da luz.
 
(Essa história foi narrada pela Oficiala Maria da Paz e convertida em crônica pela Oficiala Bruna Vivian Eustachio de Toledo Piza)

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Da assessoria de imprensa, Caroline P. Colombo