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30/10/2019 16:30:18

Aojustra divulga nova crônica sobre o dia a dia do Oficial de Justiça
Oficiais podem enviar textos até o início do próximo mês de novembro.

A Aojustra realiza, até o próximo mês de novembro, o Concurso de Crônicas sobre o dia a dia do oficialato. Os textos remetidos por Oficiais de Justiça de todo o Brasil têm o objetivo de registrar a atividade através de histórias reais que podem ser engraçadas, sensíveis, inusitadas ou até sobre os riscos enfrentados no cumprimento das ordens judiciais. 

Os cinco primeiros colocados serão contemplados com uma viagem para Colônia de Férias em Caraguatatuba conveniada com a Associação, além de outros prêmios que serão entregues aos participantes durante a confraternização de final de ano marcada para 28 de novembro no bar Salve Jorge, em São Paulo.

Para participar, o Oficial deve enviar a crônica para os e-mails aojustra@outlook.com e ane.galardi@gmail.com. É importante que o texto esteja devidamente identificado com o nome completo do autor, bem como a lotação e um número de telefone para contato. 

Intitulado “Sufoco”, o texto desta semana é mais uma contribuição de autoria da Oficiala de Justiça Bruna Vivian Eustachio de Toledo Piza, da 27ª VT de São Paulo. Confira: 

Sufoco
Por Bruna Vivian Eustachio de Toledo Piza (27ª VT/SP)

Depois de tantos anos como Oficial de Justiça e já estando com tempo suficiente para me aposentar, confesso que poucas coisas ainda me surpreendem. Nesses tantos anos de Oficialato já vi de tudo, mas o que me marcou mesmo foi uma das primeiras diligências que cumpri e olha que isso foi no final do século passado...

Eu tinha 20 anos, loira, alta, magra, fazia um calor daqueles que a gente mal sai de casa e já começa a pingar. Coloquei um macacão bem leve e decotado para suportar o calor infernal e parti para a primeira tarefa do dia. A diligência deveria ser cumprida num Distrito Policial no bairro de Guaianases, extremo da Zona Leste de São Paulo. “Decerto o destinatário seria um Policial, um Escrivão ou mesmo o Delegado” - pensei.

Ao chegar no DP fui muito bem atendida pelo Delegado, que pediu que eu aguardasse pelo Agente de Polícia. Alguns minutos depois o Agente chegou e pediu que eu o acompanhasse. Conforme fomos andando notei que ele estava me levando até a carceragem. Comecei a tremer, pois percebi que o destinatário do mandado era alguém que estava preso!

O espaço era dividido em 4 celas. À esquerda e à direita havia celas com aproximadamente 20 presos. No centro um espaço vazio, por onde adentramos, e no fundo outra cela com apenas 2 encarcerados. Eu passei por todos os presos em direção à cela do fundo, intimidada - desfilando com meu macacão decotado, que definitivamente não era roupa para se usar naquele recinto - e, surpreendentemente, não ouvi sequer um sussurro dos presos. 

O Agente abriu o cadeado, disse que eu podia entrar e indicou o destinatário. Lá estava eu dentro da cela junto com o destinatário do mandado, cara a cara. Eu simplesmente não sabia o que fazer. Cumprimentei-o com um aperto de mão, procurei ser simpática e expliquei do que se tratava. Ele assinou a contra-fé e foi extremamente educado. Ao se despedir, falou com muito respeito:

- Olha, eu sei o constrangimento que você deve estar passando e, se você me permitir, eu gostaria de te dar um presente. Isso é um porta-caneta que eu fiz aqui na prisão, na aula de artesanato. É feito com palitos de sorvete e espero que lhe seja útil.

Eu não tive como recusar, ali naquele ambiente, totalmente deslocada, o preso tentando ser gentil. Aceitei o presente e saí daquele lugar, reflexiva, enquanto o Agente me contava que o homem estava preso por estelionato.

Naquela época eu ficava lotada em uma Vara específica e cumpria somente os mandados por ela expedidos. Cheguei na Secretaria ainda apavorada e fui conversar com a chefia imediatamente.

Expliquei detalhadamente tudo o que tinha acontecido. Pedi encarecidamente que nesse tipo de mandado fosse colocada uma observação que o destinatário estava preso, para eu poder me preparar melhor. 

Meu chefe ouviu atentamente o meu relato e achou tudo normal, mas ficou completamente indignado com um único detalhe. Achou um absurdo eu ter aceitado o porta-caneta feito com palitos de sorvete pelo detento. Ele disse que eu tinha que ter recusado e que isso era inadmissível. 

Eu gostei do presente e o usei em minha mesa de trabalho por muitos anos.

(Vivido por Simone Horta Walter)


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Da assessoria de imprensa, Caroline P. Colombo